Cinema: questões sobre a fantasia
O que um filme dramático sobre garotas de programa, um documentário que tem como tema a música brega e uma comédia escrachada com enfoque na infidelidade possuem em comum? A princípio, nada, alem do fato de estrearem em um mesmo trimestre, no entanto, um olhar com maior apreensão, mostrará que os três tratam de um mesmo assunto.
“Elles”da diretora Malgoska Szumowska, “Vou Rifar Meu Coração” de Ana Rieper e “Os Infiéis” que conta com uma longa lista de diretores, incluindo o ganhador do Oscar, Jean Dujardin, discutem, cada um a sua maneira, a questão do desejo e dos lugares da mulher e do homem frente a este, em uma sociedade primordialmente masculina.
O que os três filmes expõem são as fantasias que permeiam o universo sexual das relações, colocando em discussão o desejo pela ilusão, bem como a fantasia sobre o desejo do outro. O homem é visto sexualmente como instinto, enquanto a mulher como prudência, seja por seu próprio olhar ou pelo do outro.
Em “Elles”, a personagem de Juliette Binoche, uma jornalista bela e bem sucedida, resolve fazer uma matéria sobre garotas de programa. Seu enfoque não são simplesmente as prostitutas, mas sim jovens universitárias que utilizam os programas como forma de ter uma vida mais confortável a curto prazo, o que um emprego comum não possibilitaria. Porém, o que o filme pretende abordar não é o assunto da prostituição juvenil, da exploração sexual ou mesmo dessa prática na França, mas sim a fantasia que envolve as entrevistas com as meninas e que passa a fazer parte do imaginário dessa mulher de meia idade.
Anne, que começa seu trabalho com uma teoria já fechada sobre o que significa se prostituir, é pega de surpresa ao se deparar com um outro lado, mais sensual, menos frágil e que abrange todo um jogo de sedução do comércio do corpo. Seu pré julgamento é posto a prova, uma vez que começa a perceber em si mesma, um certo interesse em experimentar o que essas meninas descrevem sobre suas aventuras amorosas com os clientes.
O filme nos deixa em dúvida sobre o que vemos retratado na tela, se o que nos é mostrado é o que as jovens descrevem ou o que Anne cria sobre o que lhe foi relatado. A jornalista descobre o desejo de agir como as prostitutas, ela quer a liberdade sexual que ouviu das entrevistadas, ela encontra essa vontade e essa possibilidade de uma outra dentro de si. A grande dúvida é se ela é capaz de bancar esse seu lado, ir do lugar da mulher intelectual, dona de casa, mãe, tudo que é esperado de si em seu ambiente de relações, à essa mulher da fantasia, que se permite ser apenas desejo.
E se no filme de Szumowska, Anne vivencia sua catarse e se permite ser por alguns instantes esta outra, quem não ostenta esse deslocamento é o marido. Patrick estima justamente o papel que Anne ocupa, vê-la tomar para si um lugar que ainda que inspire o desejo, lhe causa desprezo, é inaceitável.
Freud escreveria em seu texto Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à psicologia do amor1) que para determinados homens, “no amor normal, o valor da mulher é aferido por sua integridade sexual, e é reduzido em vista de qualquer aproximação com a característica de ser semelhante a prostituta”. Para este marido não há espaço de apreço na fantasia da jornalista, a mulher deve almejar a segurança da família, manter um certo senso de dignidade e não explorar algo que lhe demova desse lugar.
Em “Os Infiéis” o mesmo discurso se repete. As mulheres são vistas como aquelas que não transam por ai, mas sim que se apaixonam. Ainda que de forma exageradamente caricata e bufona, as esquetes pelas quais o filme perpassa, estão carregadas desses comentários sobre a função do desejo nas mulheres e nos homens. As personagens femininas buscam e se satisfazem com a segurança do lar e quando não o fazem são julgadas pela sua falta de caráter. Enquanto para os homens o adultério e o desejo carnal é tratado como algo natural, apenas uma falta de controle possível sobre sua virilidade.
A mudança de comportamento feminino como ser desejante é abordada como piada. Mulheres que só pensam em sexo e não se importam com o fato de seus parceiros serem casados é um sinal do fim dos tempos. E ainda que exista uma brincadeira com os clichês, demonstrada pelo estilo demasiado irrealista das histórias (com exceção da esquete do casal que se põe a escancarar, numa conversa mais ou menos franca, suas escapadinhas) há essa crença na espontaneidade da infidelidade masculina.
Já no filme “Vou Rifar Meu Coração” essa fantasia sobre como os gêneros devem desejar é menos obvia, mas apresenta-se a mesma tese. O universo retratado é o de um interior brasileiro machista e conservador, porém, que curiosamente coleciona “desvios” como possibilidades reais. Escondidos como representações de uma fala da classe menos favorecida, os exemplos que fogem à teoria são apresentados como anomalias risíveis, no entanto, não deixam se estar envoltos em meio a essa ideia primária de como se deve conceber o desejo.
O homem traído, vulgarmente conhecido como corno, é representado pelo sofredor, o pobre diabo que foi vítima de um golpe de uma mulher cruel. A infidelidade feminina é tratada como uma irregularidade de caráter, enquanto no caso do homem é algo que vem da natureza. O que fica implícito através do discurso de diversos personagens, que vão do sedutor ao travesti, é que ao homem lhe é dado até mesmo o direito de matar por sofrer um abandono, pois apesar de trair ser algo inerente ao homem, ser traído é inconcebível, causa dor insuportável.
Por outro viés, quando o porta voz do sofrimento é a mulher, o tom é jocoso. Ela é retratada não como vítima de um homem vil, mas sim das circunstâncias de ser mulher. Em uma das entrevistas, uma moça se diz triste por dentro, usa a palavra amargura e declara que não quer mais se apaixonar, hoje tem até medo de chegar perto de homem. Porém, quando fala francamente que só vale a pena amar um homem na hora do sexo, o tom do filme muda, percebemos que ela está tomando cerveja com as colegas e essa fala tem todo um clima de descontração proporcionado pelo álcool. A vontade sexual nessas mulheres não é levada a sério, mas sim como um conformismo trazido pela amargura.
Uma das cenas mais interessantes do documentário é o momento em que o político de uma cidade é entrevistado ao lado de sua esposa “matriz” e narra sobre as outras famílias que possui e com as quais divide seu tempo. Talvez essa cena pudesse resumir esse questionamento presente nos três filmes. Enquanto o marido diz que é inevitável que as coisas sejam como são, pois ele gosta muito de mulher e para ele seria muito difícil controlar essa situação, sua esposa, que borbulha em ódio, retratada de forma irônica pela câmera, ao seu lado, responde com o olhar tristonho: “Se para ele é difícil, imagine para mim que sou mulher.”
O que se depreende de todas essas interrogações levantadas é a dificuldade de lidar com o desejo do outro. O que o marido de Anne diria ao entrevistado de “Vou Rifar Meu Coração” que, em sua primeira visita ao bordel se apaixonou e casou com uma puta? Se o ser desejante fantasia como quer, ele também se ilude ao imaginar sobre o desejar do outro. Aquele que ama, espera que o seu ser amado seja sua própria fantasia e a maneira de querer do companheiro também entra nessa ilusão.
Elles
Os Infiéis
Vou Rifar Meu Coração
Por Cecília De Nichile
